O Som Ao Redor | Crítica

o som ao redorJá não é novidade que o Recife é responsável por algumas das melhores produções cinematográficas brasileiras nos últimos tempos. Era Uma Vez Eu, Verônica e Febre do Rato são apenas dois exemplos deste último ano fértil na cidade. Outro, que já ganhou fama e reconhecimento fora do Brasil, só está estreando para nós agora em janeiro. O Som Ao Redor é o primeiro longa de ficção do crítico Kleber Mendonça Filho e tem como tema a paranoia da classe média emergente em uma rua da cidade.

O filme segue a história de moradores ao longo de alguns meses. Nesse meio tempo, uma milícia particular se instala no local para cuidar da segurança. Durante as idas e vindas dos personagens, o filme começa a questionar suas ações naquele ambiente. De onde realmente vem o perigo e a violência? Aqueles contratados para fazer a segurança realmente cumprem seu papel ou só tornam os habitantes do lugar ainda mais reféns?

João (Gustavo Jahn) trabalha como vendedor de imóveis na região e está em busca de um amor, que acredita ter encontrado em Sofia (Irma Brown). Seu avô Francisco (W. J. Solha) é o dono de grande parte das casas da rua e praticamente o “padrinho” de todo mundo que mora ali. Seu poder começa a ser abalado quando Claudio (Sebastião Formiga) começa a tratar da segurança do lugar. Bia (Maeve Jinkings) vive uma dona de casa com dois filhos que passa os dias sendo atormentada pelo cachorro da vizinha, fumando maconha (distribuída pelo homem que instala galões de água) e se masturbando com o balanço de sua máquina de lavar roupa.

Embora haja narrativas definidas dentro do filme, a linha que as separa é tênue, formando um mosaico de tipos e ações que dá uma ideia da vida naquela rua e, mais importante, da forma como Mendonça enxerga as características dessa classe média emergente em Pernambuco.

somaoredor3A cena de uma reunião de condomínio, a melhor e mais icônica de O Som Ao Redor, é um ótimo exemplo disso. Os moradores procuram a solução para o caso do zelador do prédio, que está lá há anos e já foi ótimo em seu trabalho, mas hoje, devido à idade, não consegue desempenhar seu trabalho de maneira eficiente. Toda a discussão gira em torno do dilema de pagar seus direitos trabalhistas ou demiti-lo por justa causa, usando como prova gravações do homem dormindo em serviço.

Alguns detalhes são tão banais (como o pedido para que a tela de LCD do notebook seja ajustada, de modo que todos possam visualizar o “crime”;  a reclamação de uma moradora de que seu exemplar da Veja chega sempre fora da embalagem) que fazem com que qualquer um que já tenha passado por uma reunião semelhante sinta que já viveu aquilo antes.

O excelente uso do som (ao redor) traz ainda mais familiaridade para a narrativa. Cenas são entrecortadas pela musiquinha do caminhão de gás, por um funk que alguém está tocando na rua ou pelo alarme disparado de um carro. Isso entrega mais uma interessante leitura do estilo de vida nesse ambiente específico e que, conforme o filme é construído, desemboca em um panorama mais abrangente da sociedade brasileira moderna.

Apesar de ser filmado de maneira belíssima, com alguns momentos verdadeiramente icônicos, como Bia expelindo a fumaça de cigarro para dentro de um aspirador de pó ou João se banhando, por décimos de segundo, em uma cachoeira de sangue, o filme sofre um pouco com a repetição de seus temas e imagens.

As heranças culturais e rurais permanecem no “coronel” que tem poder sobre a vida de todos os habitantes da região, permanecem na forma como são tratados os empregados, em sua maioria negros, e ainda se aliam a novos problemas, como a paranoia pela segurança dos bens conquistados com tanta dificuldade. Tudo isso está na tela. Talvez a única coisa que tenha faltado seja um elo de aproximação maior da narrativa como um todo com o espectador, já que, de certa forma, é ele a pessoa retratada aqui.

Cotação-3-5


225px-o_som_ao_redorO Som Ao Redor
(idem)

Direção: Kleber Mendonça Filho

Roteiro: Kleber Mendonça Filho

Elenco: Irandhir Santos, Gustavo Jahn, Maeve Jinkings, W. J. Solha, Irma Brown, Lula Terra, Yuri Holanda, Clébia Souza, Albert Tenório, Nivaldo Nascimento, Felipe Bandeira, Clara Pinheiro de Oliveira, Sebastião Formiga, Mauriceia Conceição.

Gênero: Drama / Suspense

Duração: 131 minutos

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