No | Crítica

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Tudo que eu sabia sobre Pinochet é que ele havia sido um ditador chileno responsável pela morte de milhares de pessoas durante seu mandato. E pouco sei além disso sobre a história do Chile. Assistir No sem muito conhecimento prévio, porém, pode ser uma grande vantagem. Toda a narrativa é construída ao redor de um plebiscito (que a própria ditadura chilena foi obrigada a organizar, devido a pressões externas) em que seria definido se Pinochet seguiria no poder por mais oito anos ou se o país entraria para uma política democrática.

O filme é a conclusão de uma espécie de trilogia dirigida pelo diretor Pablo Larraín sobre a era Pinochet no Chile. O primeiro foi o estranho e violento Tony Manero e o segundo foi Post Mortem. Entre eles, No consegue ser o trabalho narrativo mais cuidadoso e a reconstituição histórica mais bem desenvolvida de Larraín.

René Saavedra (Gael García Bernal) é um publicitário que se envolve cada vez mais com a campanha pelo fim da ditadura que existe no país há quinze anos. Seu principal desafio é modificar a mentalidade dos membros de diversos partidos de orientação socialista que se unem contra o governo Pinochet. Utilizando-se de estratégias de marketing, ele procura reforçar uma imagem positiva da proposta, com toda a campanha se baseando na “felicidade”.

Para começar, o filme corajosamente utiliza uma baixa resolução de imagem e o formato 3×4, na forma como ela geralmente era apresentada em uma TV de tubo. Tudo para dar ao filme um aspecto televisivo mesmo, como o da propaganda política diária pelo voto Sim ou Não para o plebiscito.

A primeira coisa a se notar é que eu não tinha certeza se Pinochet realmente sairia do poder naquele momento e, portanto, não estava totalmente convencido da vitória do Não. Isso acrescentou uma tensão a mais à narrativa.

Saavedra é um personagem fictício e foi baseado em algumas das pessoas que ajudaram a montar a estratégia de veiculação dos programas televisivos da oposição. Aliás, Larraín consegue inserir trechos dessas transmissões de forma tão orgânica à narrativa que eles passam a fazer parte dela e auxiliam bastante no processo de contar essa história.

Acredito que o diretor não está completamente convencido da ideologia publicitária. Embora apresente um caso em que ela é claramente usada para o bem, a forma como seus métodos são utilizados mostra que qualquer pessoa ou corrente de pensamentos pode se apropriar deles. Para ilustrar isso ele coloca Saavedra fazendo a mesma preleção sempre que vai apresentar uma estratégia de marketing para algum cliente. Outro detalhe é que ele parece sempre querer esvaziar o discurso dos partidos (que têm coisas importantes a mostrar, como as vítimas de ataques arbitrários realizados pelo governo) e trocá-lo por belas imagens ou uma narração otimista.

Talvez por isso, ao final de No, ele pareça demorar para se encontrar com a vitória. Em meio a pessoas que comemoram calorosamente, passa incrédulo. Ele enxergava aquilo tudo como mais um trabalho. E só quando percebe que realmente ajudou a mudar os rumos de seu país, um sorriso tímido lhe aflora ao rosto.  Os caminhos podem não ter sido os melhores, mas o resultado é maravilhoso.

Cotação-5-5

No (No)

Direção: Pablo Larraín

Roteiro: Pedro Peirano

Elenco: Gael García Bernal, Alfredo Castro, Antonia Zegers, Néstor Cantillana, Luis Gnecco, Alejandro Goic, Augusto Pinochet, Jane Fonda, Christopher Reeve, Richard Dreyfuss.

Gênero: Drama

Duração: 118 minutos

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