Holy Motors | Crítica

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Uma estranha coincidência assombrou o festival de Cannes de 2012. Dois dos principais concorrentes à Palma de Ouro retratavam a perda da humanidade de seus protagonistas, que tinham vários encontros ao longo de todo um dia e vagavam por uma cidade dentro de sua reluzente limusine. O primeiro deles é o controverso Cosmópolis, filme de David Cronenberg estrelando Robert Pattinson. O segundo é o ainda mais controverso Holy Motors, do diretor francês Leos Carax, que encantou e dividiu a opinião de críticos de todo o mundo.

Holy Motors certamente não é um filme fácil. Muitos não vão gostar de sua estrutura pouco usual ou de sua narrativa fora dos padrões comuns. Mas para aqueles dispostos a aproveitar uma loucura cinematográfica da melhor qualidade, ele pode se revelar um dos melhores filmes dos últimos anos.

Falar de uma narrativa linear, neste caso, é algo extremamente complicado. Sr. Oscar (Denis Lavant) é um homem cujo trabalho consiste em assumir diversos papéis e personagens ao longo de um dia. Dentro de sua limusine, se maquia, lê os perfis de quem vai interpretar e percorre distâncias que o levam rapidamente de uma história para outra. Ele pode ser, por exemplo, um alien (com um inspirado uso da tecnologia de captura de movimento) copulando com uma fêmea de sua espécie dentro de um galpão escuro. Ou um pai que procura entender o isolamento a que sua filha se impõe. Ou ainda um demente repulsivo que se alimenta de flores e se comunica por grunhidos.

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Conhecer aos poucos cada um desses personagens é um dos grandes divertimentos proporcionados pelo filme. Além disso, a direção precisa de Carax garante que os pequenos momentos e sequências em que Oscar se insere sejam convincentes e até mesmo ocasionalmente tocantes.

Ao mesmo tempo crítica social e reflexão sobre o papel do ator, Holy Motors joga o espectador em um mundo extremamente original e que contrasta e converge de forma interessante com aquilo que conhecemos. Tudo é uma atuação, todos são atores ou agem em função deles. É tão desorientador que o sentimento de confusão dura até os últimos minutos do filme, quando ele revela alguns detalhes ainda mais surpreendentes.

A fotografia é primordial para a história e quase tão mutável quanto seu personagem principal. Ela se adapta a cada situação, ganhando ora aspectos do fantástico, ora delineando contornos realistas ou simplesmente valorizando o jogo de sombras dentro de ambientes escuros.

As participações da atriz Eva Mendes e da cantora Kylie Minogue acontecem em pontos-chave e são responsáveis pelas melhores sequências da projeção. Há até espaço para que Minogue solte sua voz.

Mas o que Holy Motors está querendo dizer? Que o ator é um ser que não existe em si mesmo, pula de personalidade em personalidade sem deixar espaço para desenvolver uma que seja propriamente sua? As pessoas em geral cada vez mais forjam uma máscara que condiz com cada situação em que se veem? Ou, o que é mais provável, não quer dizer nada, apenas sugerir coisas aleatórias nas mais diferentes direções?

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Na realidade, não importa. A novidade estética e visual que o filme traz é tamanha que essas questões acabam sendo deixadas de lado a favor da apreciação do filme como um todo. Uma daquelas viagens maravilhosas que fazem você voltar a acreditar na força da imagem, na força da situação. E isso, meu amigo, é cinema com C maiúsculo.

Cotação-5-5

 


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(idem)

Direção: Leos Carax

Roteiro: Leos Carax

Elenco: Denis Lavant, Édith Scob, Eva Mendes, Kylie Minogue, Élise L’Homeau, Jeanne Disson, Michel Piccoli, Leos Carax.

Gênero: Drama/Ficção Científica

Duração: 115 minutos

 

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