Elefante Branco | Crítica

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Elefante branco é a forma como ficou conhecido um edifício abandonado pelo governo argentino desde a década de 30. Em seu planejamento inicial, o prédio, que realmente existe até hoje em Buenos Aires, deveria ter se tornado o maior hospital de toda a América Latina. Hoje, abriga cerca de 30 mil pessoas que não têm para onde ir. Quem nos dá todas essas informações logo no início de Elefante Branco é o padre Julián (Ricardo Darín), que durante muitos anos tem sido o protetor da comunidade que se estabeleceu dentro desses muros e da favela que se formou próximo a eles.

Continuando sua incursão cinematográfica em narrativas de corrupção e denúncia social, o diretor Pablo Trapero desta vez conta uma história muito maior, principalmente se fizermos uma comparação com Abutres, seu último filme. Enquanto naquele Trapero abordava uma situação complexa (o grande número de mortes provocadas pelo trânsito no país) com o foco em conflitos individuais, Elefante Branco dá muito menos importância a seus personagens para trazer às telas justamente a grande denúncia que quer fazer.

Embora notável, a estratégia traz alguns problemas ao filme. O primeiro e mais sério deles é que se torna muito mais difícil se conectar aos personagens. Como o roteiro opta por mostrar pouco de suas vidas pessoais, seus gostos e paixões, a impressão que fica é que suas existências estão ligadas somente aos acontecimentos cotidianos do Elefante Branco, enfraquecendo bastante suas motivações.

Embora seja incapaz de fornecer um pano de fundo para suas vidas, o diretor se mostra competente para apresentar a jornada dessas pessoas. Isso fica mais evidente em uma sequência em que a câmera acompanha a trajetória do padre Nicolás (Jérémie Renier) ao coração negro da comunidade, dominado pelo tráfico e violência. Sua missão é recuperar o corpo de um membro de uma das gangues rivais que coexistem dentro da favela. Proibido de entrar ali, ele vaga por quartos cada vez mais apertados, em que os ocupantes irritados representam sempre uma ameaça para ele.

Apesar de falho, o longa também é capaz de estabelecer o Elefante Branco como um dos personagens da história, na verdade o mais importante deles. Os conflitos que acontecem ali, o embate entre as rosas e os espinhos da comunidade são sempre muito verdadeiros e interessantes.

Considerando-se que dois padres protagonizam a narrativa, é surpreendente que a decadência espiritual esteja tão presente em toda a obra. A história opta por criar pessoas que agem primeiramente como seres humanos, independentemente de sua posição e crença religiosa. Tanto Julián quanto Nicolás vivem momentos de dúvida e questionamento em relação à fé cristã. O segundo, aliás, é retratado como um sacerdote nada ortodoxo, que negocia com traficantes e tem relações sexuais com a assistente social da comunidade, Luciana (Martina Gusman).

Ao final, Elefante Branco mostra ser uma história de desilusão, em que Julián acaba tendo que exercer um papel que sempre se negou a assumir e em que seu suposto substituto está tão perdido que mal pode lidar com os acontecimentos violentos que encerram o filme. Apesar disso, tudo acaba soando muito mais como uma crítica morna do que como o ferrenho ataque aos problemas sociais que pretendia ser.

Cotação-3-5

Direção: Pablo Trapero

Roteiro: Pablo Trapero, Alejandro Fadel, Martín Mauregui e Santiago Mitre

Elenco: Ricardo Darín, Jérémie Renier, Martina Gusman, Miguel Arancibia, Federico Barga, Esteban Díaz, Pablo Gatti, Walter Jacob, Raul Ramos, Susana Varela, Julio Zarza

Gênero: Drama

Duração: 110 minutos

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