Gonzaga – De Pai pra Filho | Crítica

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A principal virtude de 2 Filhos de Francisco, trabalho anterior do diretor Breno Silveira, era sem dúvida a maneira sensível que o filme desenvolvia a trajetória de Zezé di Camargo e Luciano desde a pobreza até alcançar o sucesso. Centrado na performance carismática de Ângelo Antônio, o filme conseguia fazer até quem não era fã da dupla se envolver e emocionar com sua história, alcançando o sucesso mais pelo seu próprio roteiro do que pela obra dos artistas retratados. Curiosamente o efeito inverso acontece neste Gonzaga – De Pai pra Filho, que apresenta uma estrutura falha, mas se salva graças à qualidade impecável da música produzida pelos dois gênios que protagonizam o longa.

Talvez o maior problema do filme resida na sua ambição de retratar mais de 60 anos de história em apenas duas horas de duração. Tendo como tema central o conturbado relacionamento entre Gonzagão e Gonzaguinha, o roteiro ganharia mais ritmo e coesão caso decidisse se dedicar unicamente a isso, mas ao invés disso ele cai na tentação de querer retratar toda a biografia de Luiz Gonzaga, desde sua saída do Exu até se tornar o famoso Rei do Baião. Isso acaba sobrecarregando o filme de tal maneira que a história corre com um crônico tom episódico. Os fatos vão se sobrepondo aos saltos sem a menor fluidez, não há em momento algum a sensação de passagem gradual de tempo.

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Colaborando com isso, a direção desajeitada de Silveira faz escolhas lamentavelmente infelizes, como ao colocar legendas desnecessárias na tela, ou frequentemente interromper o longa para exibir imagens de arquivo que, apesar de interessantes, imediatamente jogam o espectador para fora do filme, uma vez que são lembretes ambulantes que afinal não estamos vendo os verdadeiros Gonzagas em cena. A impressão que fica é que o diretor ficou tão fascinado por aquele material que não poderia deixá-lo de fora do filme. Talvez fosse o caso de ter transformado o projeto em um documentário, onde essas imagens seriam mais do que bem vindas.

Por outro lado, em determinados momentos o diretor alcança lampejos de puro brilhantismo, como na elegante elipse onde Gonzaga envelhece. Outra qualidade irretocável do filme se dá na maneira como insere as canções icônicas tanto do pai quanto do filho, em cenas que acabam elucidando todo o significado presente em suas letras. Assim, Respeita Januário aparece quando Luiz, já famoso, reencontra seu pai, Asa Branca surge quando ele deixa o sertão pela segunda vez,  Com a Perna no Mundo marca a decisão de Gonzaguinha deixar o Morro de São Carlos e a emocionante Sangrando ganha uma roupagem completamente nova quando a encaramos como uma declaração do filho para o pai.

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Superando as limitações de ritmo do roteiro, o elenco se mostra devidamente competente. Estreante na atuação, Chambinho do Acordeon não chega a impressionar, mas também passa longe de fazer feio. Encarnando Luiz Gonzaga como um sujeito carismático que sempre tem um sorriso no rosto, ele nos leva a quase perdoar as falhas do personagem. Já Julio Andrade surge praticamente idêntico a Gonzaguinha, numa caracterização extremamente detalhista do cantor (reparem os trejeitos que Andrade emprega ao fumar, por exemplo). Uma pena que o filme não dê tanto destaque para o desenvolvimento do personagem, que não consegue ir além da sua amargura provocada pelo abandono do pai.

Mas talvez seja pedir demais que um filme só bastasse para retratar duas figuras do tamanho dos Gonzagas. Tanto filho quanto pai são gigantes da nossa cultura e, apesar de toda a mágoa existente na superfície, é nítido o comum orgulho que no fundo um sentia pelo outro. E quando chega o momento de reconciliação, a emoção aflora e o espectador vai abaixo. No fim Gonzaga – De Pai pra Filho se salva pela grandiosidade de seus protagonistas, ambos gênios da nossa música. Era mais do que justo que fizessem as pazes antes de irem-se.Gonzaguinha-e-Dina-630x426

 

 

Cotação-3-5

 

Gonzaga-De-Pai-pra-Filho-204x300Gonzaga – De Pai para Filho (idem)

Direção: Breno Silveira

Roteiro: Patrícia Andrade

Elenco: Adélio Lima, Chambinho do Acordeon, Land Vieira, Julio Andrade, Giancarlo di Tommasio, Alison Santos, Nanda Costa, Silvia Buarque, Luciano Quirino, Claudio Jaborandy, Cyria Coentro, Olivia Araújo, Zezé Motta, João Miguel, Domingos Montagner, Cecília Dassi, Roberta Gualda.

Gênero: Drama

Duração: 120 minutos

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