360 | Crítica

360-630x921Reza a lenda que duas pessoas estranhas estão conectadas por pelo menos seis níveis de conhecidos. Este é o mote principal do novo filme do diretor brasileiro Fernando Meirelles, 360, uma adaptação da peça teatral La Ronde, mas que poderia muito bem passar por uma quadrilha drummondiana. É difícil definir uma sinopse para o filme, pois ele é uma coletânea de pequenas histórias que estão conectadas uma a outra, nos levando a uma viagem pelo mundo na qual conhecemos inúmeros personagens diferentes até enfim retornar ao ponto de partida. E assim fica claro que nessa grande rede a menor ação de um completo desconhecido pode vir a afetar radicalmente as nossas vidas, num imenso efeito dominó.

O conceito de 360 sem dúvida é interessante. Principalmente nos tempos de hoje, com as redes sociais crescendo cada vez mais, vemos que realmente fazemos parte de uma imensa teia mundial. O problema é que apenas essa ideia sozinha não é suficiente para prender o espectador por quase duas horas e o filme frequentemente perde o foco. Tendo que dar igual atenção às suas múltiplas narrativas, o tempo que o filme tem para desenvolver cada personagem é escasso, e os desfechos das histórias quase sempre são inconclusivos. O que aconteceu, por exemplo, com  o fotógrafo brasileiro vivido por Juliano Cazarré que foi abandonado pela namorada em Londres no início do filme? Apesar de inicialmente parecer que haverá um maior desenvolvimento daquela situação, o filme simplesmente esquece dele posteriormente.

Nesse sentido, o trio Anthony Hopkins, Maria Flor e Ben Foster foi privilegiado. Protagonizando aquela que é a melhor sequência do longa, seus personagens são os que mais chamam atenção e cativam dentre todos os que aparecem no filme, e eu particularmente não me incomodaria caso o longa se passasse inteiramente naquele aeroporto onde eles estiveram presos. Já a prostituta vivida por Lucia Sposová, apesar de ter um início promissor, jamais conquista o espectador, ao passo que o conflito moral que o personagem de Jamel Deddouze passa é frustrante por ser tão mal resolvido. Aliás, conflitos mal resolvidos é o que não falta no filme: o casal vivido por Rachel Weisz e Jude Law, apesar de claramente em crise (por qual razão também não fica claro), passam o filme inteiro sem trocar uma palavra sobre sua relação. Dessa maneira, sua felicidade no final soa falsa demais. Afinal, o que exatamente foi resolvido ali?

Felizmente a direção de Meirelles é competente e compensa um pouco essa frustração do roteiro. Empregando frequentemente telas divididas para ressaltar ações simultâneas que acabam se relacionando, algo que encaixa perfeitamente na ideia do filme, o diretor brinca muitas vezes com a nossa percepção ao focar imagens que logo se revelam como reflexos de algum espelho, ou vidro etc. Meirelles já havia feito algo semelhante em Ensaio sobre a Cegueira, mas se lá ele procurava atordoar o espectador, procurando inseri-lo também na cegueira, aqui o objetivo é mostrar como os personagens escondem na aparência seus conflitos e dilemas internos – representados pelos reflexos disformes. Por outro lado, o diretor executa alguns cortes rápidos que quebram a continuidade das cenas sem ter um propósito muito claro, algo que fica patente na sequência onde a personagem de Maria Flor está fotografando a de Rachel Weisz. Ainda assim, Meirelles é elegante ao confiar na inteligência do espectador em se situar dentre as inúmeras locações onde o longa se passa, deixando para a trilha sonora e para o idioma falado pelos personagens essa tarefa.

O que nos traz de volta à teoria dos seis graus de separação. Se é possível realizar uma verdadeira viagem mundo afora indo de pessoa em pessoa até retornar ao ponto de partida, numa intrigante teia de relacionamentos, será que não valeria a pena parar um pouquinho para apreciar melhor cada elemento desta rede? 360 parece fascinado demais pelas conexões e se esquece que são as pessoas que dão verdadeiro sentido para elas.

Cotação-3-5

 

360 | Trailer legendado
360 | Trailer

 

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