2001: A maior odisseia que o cinema já me proporcionou

2001-Uma-Odisséia-no-Espaço-logo“A ficção científica mais bonita e mentalmente instigante de todos os tempos.”

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É desta forma que 2001: Uma Odisséia no Espaço é definido na contra-capa do meu velho dvd, naquelas citações publicitárias comuns de aparecer nesses espaços. Tais frases são conhecidas por primarem pelo elogio exagerado e nem sempre condizerem com a realidade, mas a obra-prima de Stanley Kubrick alcança níveis de pura perfeição em tantos aspectos que fica difícil duvidar da veracidade da frase. Ainda hoje, mais de 40 anos depois de seu lançamento, esse filme encanta e promove intermináveis debates entre cinéfilos de diferentes gerações.

Uma das características mais marcantes de 2001 é sem dúvida o seu caráter universal. Mesmo sendo uma projeção de um futuro imaginado na década de 60 – época da corrida espacial, onde o homem parecia estar prestes a dominar o espaço – o argumento do filme dialoga com questões que estão na essência da nossa filosofia: “O que somos? De onde viemos? Para onde vamos?” São perguntas fundamentais que se encontram na base da nossa existência, nos definindo assim enquanto seres pensantes, não estando presas à nenhum local ou época em particular.

Outro fator que colabora para este caráter universal do longa é o minimalismo extremamente elegante que Kubrick procura empregar em sua direção, priorizando sempre a linguagem não-verbal. Em muitos sentidos 2001 se assemelha a um filme mudo, e não à toa que quando o primeiro diálogo surge – aos 25 min! – este causa um certo estranhamento no espectador, como se a fala fosse um elemento estranho àquele universo. Contribui para isso o extremo respeito do filme às próprias leis da física: o diretor não hesita em retratar o espaço da maneira silenciosa que ele é (sabemos que o som não se propaga no vácuo). É uma atitude corajosa que muitas vezes pega o expectador de surpresa (nossa experiência cinematográfica nos leva a antecipar explosões sonoras em momentos onde elas propositalmente não acontecem).2001-Uma-Odisséia-no-Espaço-Macaco

É claro que esse minimalismo acaba por dar maior importância para outros elementos do filme. Kubrick procura compensar a falta de linguagem verbal em todos os outros recursos de que dispõe: desde os seus enquadramentos, os magníficos efeitos especiais e, sobretudo, a sua maravilhosa trilha sonora. O diretor a utiliza de maneira cirúrgica de modo a evocar diferentes sensações: desde o lindo balé provocado pela falta de gravidade ao som do clássico O Danúbio Azul, o que leva o filme a se assemelhar bastante com uma ópera, até os momentos de êxtase pontuais marcados pela verdadeira catarse musical que é Assim Falou Zaratustra, canção que se tornou marca registrada do filme posteriormente. Ainda na parte sonora, é incrível perceber como o diretor faz uso do próprio silêncio para evocar tensão, como nas sequências de embate entre os astronautas e o robô HAL 9000, onde só podemos ouvir a respiração dos personagens (inspiração para a futura antológica respiração de Darth Vader?).

A direção é irrepreensível. Perfeita. É difícil encontrar algum enquadramento que seja menos que lindo, maravilhoso. Kubrick posiciona sua câmera de maneira a compor seu filme de quadros que tranquilamente poderiam figurar numa galeria de artes (e não à toa me senti dolorosamente dividido para escolher as fotos para compor esta resenha). Gosto particularmente de como o diretor retrata o Sol a surgir por trás do monólito num contra-plongè que obviamente ressalta a clarividência proporcionada pelo enigmático objeto. E o que dizer dos fabulosos efeitos especiais, que parecem se recusar a empalidecer diante do tempo? Kubrick brinca com a nossa perspectiva em diversos momentos e nos deixa atônitos como um mágico que fascina sua platéia: Afinal, como ele foi capaz de filmar daquela forma quase uma década antes do cinema conhecer Star Wars? E como ele conseguiu um retrato tão preciso do espaço um ano antes de a humanidade conseguir sequer pisar na Lua?

Se esse impressionante preciosismo técnico por si só já seria o bastante para alçar o filme à condição de obra-prima inquestionável, a situação alcança níveis muito mais profundos quando analisamos o que há por trás do seu roteiro. 2001 não se trata apenas de uma odisséia do homem rumo a conquistar o espaço, mas de uma jornada de autoconhecimento que investiga a humanidade em seu cerne. Conforme já citado, o mistério que circunda o monólito sintetiza aquelas questões mais essenciais da nossa filosofia. O advento da consciência, encenado pela arrepiante sequência no início do filme – onde nosso ancestral evolutivo descobre a ferramenta, representa a nossa própria gênese enquanto espécie (“De onde viemos?“): ali deixamos de ser meros primatas, ali começamos a pensar.2001-Uma-Odisséia-no-Espaço-Hal

Não à toa neste mesmo início de filme Kubrick nos retrata a dependência que a humanidade teria da ferramenta – o bando de primatas só consegue algum êxito graças às suas armas – assunto que retomaria posteriormente, ao nos apresentar a tripulação da nave Discovery, quando conhecemos aquele que se torna o personagem mais marcante do longa: o computador HAL 9000. Aqui novamente detectamos o minimalismo do diretor: HAL não passa de uma luz vermelha (que frequentemente nos evoca o chamado “Efeito Kuleshov“) e uma voz pausada. O que mais impressiona neste segmento é que, além da relação de dependência homem x máquina onde o astronauta Dave deve superar a ferramenta rebelde para progredir, o diretor não hesita em retratar o robô de maneira muito mais humana que os demais. Não à toa a câmera frequentemente posiciona o nosso olhar na visão do computador, o que nos leva imediatamente a nos identificar com a máquina, numa inversão de papéis simplesmente brilhante. De toda a tripulação da Discovery, HAL é o único integrante que demonstra alguma hesitação, algum medo. Os demais surgem sempre de maneira impassível, inexpressiva. Isso retrata simultaneamente tanto a mecanização do ser humano, com o afastamento das relações sociais, quanto a humanização da máquina. Afinal de contas, HAL pode ou não sentir emoções? Se a resposta for sim, o que nos diferenciaria substancialmente dele? (“O que somos?“).

O que nos leva finalmente ao controverso terceiro ato do filme. Após vencer o embate com o computador, Dave conhece a verdade sobre a sua missão e a relação desta com a misteriosa aparição do monólito na Lua. Ele guia a Discovery rumo a Júpiter e encontra o enigmático objeto sobrevoando pelo espaço. Resolve segui-lo e… não vou me aventurar a tentar explicar o que se segue. Apenas pontuo o básico: o monólito guia Dave rumo a “além do infinito”. Parece que, após superar a sua dependência pela ferramenta, o homem finalmente está pronto para o próximo estágio. (“Para onde vamos?”). E o que seria o próximo estágio? O que representa a Starchild do final do filme? Seria Deus? Seria uma raça alienígena superior? A obra não traz respostas quanto a isso – até porque são respostas que possivelmente jamais saberemos.

Mas que, sem dúvida, jamais deixaremos de nos perguntar.2001-Uma-Odisséia-no-Espaço-Starchild

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