O Exótico Hotel Marigold | Crítica

O_Exotico_Hotel_MarigoldNós costumamos viver a vida apoiados sempre na ilusão de que ela é eterna. Ignoramos qualquer sinal que nos lembre que nosso tempo por aqui é limitado e rechaçamos com veemência qualquer referência ao assunto. Talvez isso explique o papel marginalizado ao qual submetemos os idosos na nossa sociedade: de certa forma eles são lembretes ambulantes do destino que tanto nos empenhamos em ignorar. Assim, constantemente relegamos essas pessoas a um cruel beco sem saída, no qual elas devem aceitar que seu tempo já passou, que já é tarde para pensar em produzir ou conquistar qualquer coisa que seja e que lhes cabem apenas esperar calados o derradeiro fim de suas vidas enquanto nós cuidamos dos afazeres e inconvenientes até lá.

Abordar esta complexa questão de maneira sensível é o que O Exótico Hotel Marigold oferece de melhor. O filme traz a história de sete idosos ingleses, cada um com seus conflitos, que viajam para a Índia e se hospedam no hotel do título, um lugar que se diz especializado em receber pessoas de idade avançada.

Oferecendo um primeiro ato eficiente que nos apresenta em sequências intercaladas seus personagens, o diretor John Madden (Shakespeare Apaixonado) consegue captar sutilezas que demonstram a maneira cruel com que tratamos os idosos. Em determinado momento, por exemplo, um vendedor de casas aponta corrimãos e alarmes como uma indiscutível vantagem em sua oferta ao casal interpretado por Bill Nighy e Penelope Wilton, denunciando que os enxerga como dois incapazes. Em outro, o filho da personagem de Judi Dench decide levá-la para morar com ele sem consultá-la antes. Ou ainda quando o simpático velhinho interpretado por Ronald Pickup é imediatamente rejeitado por uma mulher em função de sua idade.

Trazendo cenas locais que indiscutivelmente embelezam e dão charme ao filme, a fotografia trabalha numa lógica simples e eficaz ao desenvolver o contraste de cores entre os atos do filme. Se a Inglaterra surge mais fria e escura, evocando não somente o clima como também o estado desencontrado de seus personagens, a Índia traz um aspecto bem mais colorido e quente, focando a vivacidade daquele país e a jornada dramática vivida por aquelas pessoas. No entanto o filme peca em exacerbar a desorganização do país para gerar situações cômicas, o que denota um reprovável sentimento de superioridade inglesa por parte de seu diretor.

O elenco transborda talento. Servindo como centro emocional para aqueles personagens, Judi Dench investe numa serenidade típica de vó ao encarnar uma viúva que decide finalmente tomar as rédeas da própria vida, ao passo que Bill Nighy explora a doçura e gentileza de um homem que se esforça ao máximo para sempre ver o melhor lado das coisas, apesar da negatividade de sua mulher. E se Dev Patel parece acreditar que correr e falar apressadamente é suficiente para encarnar a angústia do rapaz que dirige o estabelecimento, Tom Wilkinson traz aquela que é a figura mais densa e interessante do filme: um homem atormentado que retorna à Índia para encarar seu passado. Já Ronald PickupCelia Imrie usam com eficiência seu pouco tempo em tela não só para serem bons alívios cômicos como para dar relevância à busca pelo amor, mesmo em idade avançada. Finalmente, a excelente Maggie Smith tira leite de pedra ao driblar um roteiro que impõe uma improvável transformação em sua personagem.

E já que abordamos o roteiro, resta apontar aquela que é a grande falha do filme. Após estabelecer a jornada de cada personagem e desenvolvê-las de maneira razoável, a narrativa se vê na obrigação de resolver os conflitos de maneira súbita e forçada em seu terceiro ato. Assim, personagens passam a tomar atitudes que não condizem com nada que vinham apresentando até então, situações absurdas surgem como apressadas conclusões para relacionamentos ou mesmo a apelação para um deus ex-machina que subitamente faz sumir um obstáculo para a união de um casal.

Uma pena, já que até então o filme vinha se estabelecendo como um admirável exemplar que aborda este que é um assunto tão raro de ser discutido. A velhice não pode ser vista como uma mazela, afinal dentre todas as alternativas de futuro ela com certeza é a mais otimista.

Cotação-3-5

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3 comentários

  1. Parabéns pela sua crítica e comentário. NINGUEM , além de vc (e de mim) parece ter olhado para o filme desta maneira. Vou transcrevê-lo no meu blog ( "uma certa idade…")

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