1984 – O Clássico de George Orwell


1984-George-Orwell1-194x300O lançamento recente de Jogos Vorazes trouxe à tona novamente toda a temática que envolve a mais famosa obra de George Orwell. Romance distópico clássico, tendo sido duas vezes adaptado para o cinema, 1984 pinta um  retrato angustiante de um possível futuro da humanidade. A história mostra uma sociedade completamente dominada por um regime político totalitário, onde a vida das pessoas é completamente vigiada pelo Partido, personificado pela figura do Grande Irmão. A privacidade é inexistente. Qualquer deslize pode ser fatal. Não importa onde esteja, “O Grande Irmão está observando você”.

 

GEORGE ORWELLGeorge Orwell era o pseudônimo do escritor e jornalista inglês Eric Arthur Blair. Tendo vivido durante a primeira metade do século XX, se tornou um grande ativista político da época. Definindo sua posição como socialista democrático e possível simpatizante da ideia anarquista, criticou duramente o chamado “socialismo real” praticado pela União Soviética em outro romance famoso: A Revolução dos Bichos (Animal Farm no original), de 1945.  Tendo uma intensa oposição à qualquer forma de totalitarismo, Orwell realizou em 1984 a sua obra máxima dois anos antes de morrer, em 1950, vítima de tuberculose.

A estrutura de 1984 não se preocupa em ser muito elaborada, adotando o clássico formato de três atos  narrativos marcados de forma clara por viradas na trama. Ao mesmo tempo sua escrita é feita de maneira simples e direta, sem muitos rodeios nem descrições exageradas. Isto torna o livro fácil de ser lido, com um ritmo que se mantém constante durante toda a trama. O foco aqui é o conteúdo da mensagem, e não a forma com a qual ela é apresentada.

Grande-Irmão-1984

A trama é protagonizada por Winston Smith, um membro do Partido que mora em Londres. Em determinado momento, sem nem entender muito bem o porquê, Winston se rebela. Logo de início somos apresentados ao personagem num estado de necessidade desesperador, quase animalesco, de ter que exprimir sua insatisfação de alguma forma. Mas sua vida é vigiada o tempo inteiro por pessoas prontas para denunciá-lo e por Teletelas, uma mistura de TV com câmera que monitora tudo que está ao seu redor ao mesmo tempo em que transmite sem cessar informações do Partido. O menor vacilo pode lhe custar a vida. Essa situação do personagem ter que sempre esconder o que sente e o que pensa para nunca ser pego gera uma tensão angustiante durante toda a história, e Orwell trabalha isso de maneira sublime. O autor deixa claro desde o início que não há escapatória, Winston está condenado desde o momento em que teve o primeiro pensamento rebelde. Mas mesmo assim o leitor se prende ao personagem e o clima angustiante o engole completamente.

1984-winston-e-juliaNo segundo ato da história, Winston conhece uma moça chamada Julia, que secretamente também dividia sua repulsa pelo Partido e pelo Grande Irmão. Os dois começam um romance. É interessante notar que Julia não compartilha das preocupações políticas de seu amado. Sua visão de mundo é muito mais pragmática, ela apenas anseia por ser dona da própria vida, poder fazer o que quiser. De certa forma, ela é o personagem mais forte que o livro apresenta, já que sua personalidade comporta um dos mais primitivos desejos da alma humana, antes de qualquer ideologia política possível,  o anseio pela liberdade puro e simples. A medida que o romance entre os personagens se desenvolve, o leitor é levado pela ternura e experimenta por um breve momento um alívio na tensão e uma ponta de esperança para os dois.

1984-dedosSentimento que é logo impiedosamente destruído pelo cruel terceiro ato da história. A perturbadora sequência de tortura que se segue até o fim não deixa o leitor parar para respirar. Ao final, a exemplo do próprio Winston, seus nervos estão em frangalhos. A força da lavagem cerebral com a qual o personagem é submetido é tamanha que ele chega ao ponto de realmente ver o que o Partido, representado pela figura ambígua de O’Brien, lhe sugere. Não é o bastante concordar que dois e dois são cinco, se ele assim diz. É necessário ver de fato. E ao forçar a condição de dor ao extremo, a ponto de perder completamente a sanidade, Winston é transformado em algo inerte, inumano. Ele é anulado enquanto indivíduo.

1984-war-is-peaceEsta é a principal crítica de Orwell ao totalitarismo, não importa sob que estandarte ele se transvista. O Estado de 1984 reduz o indivíduo a nada. Ele lhe tira a capacidade de raciocinar por si próprio, já que o aliena através de sua filosofia de Duplipensamento. Ele lhe tira a memória, já que o tempo todo os registros do passado são alterados de acordo com a conveniência de quem está no poder e as pessoas são convencidas de que sempre foi assim (“Quem controla o passado, controla o futuro. E quem controla o presente controla o passado”). Em última instância, este Estado tira do indivíduo até mesmo a sua forma de se expressar, já que idealiza um novo idioma, batizado de Novafala, cujo vocabulário é convenientemente reduzido.

E Orwell vai além em sua crítica. Naquele que é o melhor momento da narrativa, o autor discorre através de um artifício “livro dentro do livro” todo um discurso sobre a sistemática na transação de poder dentro da sociedade através dos tempos. E qualquer um que tenha estudado história na vida reconhece a precisão daquele padrão que é, antes de tudo, uma denúncia irrefutável da mesquinharia e do egoísmo humano.

Porém, maior que todo viés político, o que fica depois de ler 1984 é mesmo uma forte e profunda melancolia. Poucas vezes na minha vida li uma conclusão tão triste e desoladora como é o final deste livro. A sensação é que o leitor foi atropelado por um caminhão. Isto, é claro, só significa o quão maravilhoso é este clássico e o quão importante é a lição que ele contém. Que a humanidade jamais se esqueça dela.

3 comments

  1. Que resenha fantástica! Cheguei no seu blog super por acaso, pesquisando imagens de 1984, mas abri e… Fiquei. Até hoje eu tenho uma dificuldade em sintetizar 1984 em uma resenha que lhe seja justa, por isso nunca fiz. Mas a tua metáfora de se sentir como se tivesse sido atropelado por um caminhão é CERTEIRA. Enfim, gostei do blog!😉

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