The Beatles! Parte 3: O Sonho Acabou?

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Eu devo ser um dos poucos fãs que não colocam a culpa do fim da banda na conta da Yoko Ono. Sim, sua presença foi um fator gerador de tensões entre os quatro, mas mesmo assim acho que pintar a artista japonesa de “responsável pelo fim” é uma enorme injustiça. A verdade é que o grupo estava fadado à separação, o processo de amadurecimento artístico estava tornando os Beatles mais autônomos um do outro. As individualidades emergiram divergências e brigas aconteceram num momento em que o grupo já não contava mais com a figura conciliadora do empresário Brian Epstein. Encaremos os fatos: o fim era inevitável, com ou sem Yoko.

A forte individualização dos membros do grupo pode ser constatada no chamado Álbum Branco, apelido dado pelos fãs ao disco-duplo The Beatles, décimo do fabfour. As gravações desse projeto envolveram fortes tensões entre os Beatles, e não é raro encontrar faixas no álbum em que a banda não está completa. De fato o clima se tornou tão pesado que no meio do processo Ringo Starr decidiu abruptamente abandonar a banda, retornando logo depois.

Leia também as outras partes deste artigo sobre os quatro de Liverpool:

White-AlbumAs músicas divergem drasticamente de estilo conforme seu compositor: Se Paul estava tentando experimentar coisas novas com Back in the U.S.S.R., a simpática Ob-La-Di, Ob-La-Da (que John declarou detestar), a balada Blackbird, a quase monofrásica Why Don’t We Do It in the Road? e a pioneira Helter Skelter (acima – que muitos dizem ser a precursora do heavy metal), George encontra seu melhor momento com While my Guitar Gently Weeps, onde convida seu amigo Eric Clapton a fazer uma participação especial, tocando a tal guitarra que chora. E se Ringo aparece pela primeira vez compondo em Don’t Pass Me By, John apresenta canções de cunho mais intimista, se inspirando principalmente nas suas experiências na Índia, como em Dear Prudence (composta para chamar Prudence Farrow para as atividades em conjunto com o grupo de meditação) e em Sexy Sadie (onde externa um sentimento de frustração após ouvir dizer que o maharishi assediava a atriz Mia Farrow), John ainda dedica uma canção à sua mãe, Julia, e ao seu filho Julian, Good Night. Mas a grande sacada de Lennon nesse disco está mesmo em Revolution (abaixo – lançada no disco numa versão mais lenta do que no single, conforme agradava mais a Lennon), onde critica os modelos de revolução baseados em violência, prenunciando o ativista pela paz que ele iria se tornar no futuro. Ainda temos nesse disco a colagem doida de sons que é Revolution 9, num experimentalismo que marcaria a parceria entre John e Yoko.

John-e-YokoDizer que Yoko influenciava John é o mesmo que dizer que o céu é azul (a história do casamento dos dois até gerou o single The Ballad of John and Yoko). O que muita gente ignora é que isso era justamente o que Lennon queria. Ao voltar da Índia ele se sentia perdido e frustrado pela experiência com o maharishi não ter atendido suas expectativas. Foi em Yoko que John encontrou sua resposta. Os outros Beatles obviamente sentiram a presença dela como uma invasão, uma intromissão, mas a coisa não foi como se a Yoko tivesse simplesmente se metido no meio deles. Foi John quem a trouxe, porque ela se tornou importante em seu processo criativo.

Obviamente o relacionamento com Yoko destruiu o casamento com Cynthia e fez o então pequeno Julian Lennon sofrer com a separação. Sendo muito ligado àquela família, Paul se compadeceu da situação do garoto e compôs uma música para alegrá-lo. Tal canção rendeu o single de maior venda da carreira e se tornou um dos maiores clássicos da banda: Hey Jude.

(impossível não cantar junto o “daradá-dá”)

 

Yellow-SubmarineAinda em 68 foi lançada a animação Yellow Submarine, cuja trilha sonora rendeu o décimo primeiro álbum da banda, mas a participação dos quatro nesse projeto foi mínima. Apenas as 6 faixas do lado A foram compostas pelos Beatles, sendo somente 4 inéditas. O resultado foi o álbum mais fraco do fabfour, apesar da animação ter sido bastante elogiada pela crítica.

Buscando uma volta às raízes, em 1969 Paul concebeu o projeto do álbum/documentário Get Back, onde os Beatles gravariam como se estivessem tocando ao vivo, da mesma maneira como foi feita em Please Please Me. Até uma foto semelhante à capa do primeiro álbum da banda foi realizada. As gravações culminaram numa espécie de mini-show no telhado dos estúdios Apple em Londres (ideia de John). Os Beatles tocaram durante 40 minutos até a polícia pedir para parar devido ao tumulto nas ruas. Foi a última apresentação ao vivo que a banda realizou.


O projeto Get Back acabou não indo para frente, tendo seu lançamento constantemente adiado. Os Beatles acabaram se engajando em outro trabalho, o clássico álbum Abbey Road, último disco da banda a ser gravado (apesar de ser o penúltimo lançado). Aqui George Harrison finalmente tem seu grande momento como compositor, emplacando os sucessos Here Comes the Sun e aquela que eu considero a música romântica mais linda e verdadeira dos Beatles, Something (abaixo). O sentimento de ter suas composições preteridas pelos outros foi uma das grandes razões para o descontentamento de Harrison no grupo. Também se destaca Come Together, de John, e Oh! Darling, de Paul. Além disso, existe um medley fantástico de 8 músicas no lado B do disco, iniciando em You Never Give Me Your Money e terminando em The End. Uma verdadeira ópera.Abbey-Road

Infelizmente, o clima turbulento entre os quatro Beatles acabou numa briga para escolher quem seria o novo empresário da banda. Os outros viram com desconfiança a sugestão de Mccartney para Lee Eastman, pai de Linda, achando que este beneficiaria Paul em detrimento deles e optaram por Allen Klein, que acabou sendo processado por roubar 5 milhões de libras em média da banda posteriormente. Em setembro de 69, John Lennon anunciou que se afastaria do grupo, mas concordou em não anunciar isso publicamente até que determinadas questões jurídicas fossem resolvidas. Em abril do ano seguinte Paul anunciaria oficialmente o fim do grupo.

Let-It-BeEm março de 70 as gravações do projeto Get Back foram entregues ao produtor Phil Spector, que as remasterizou e lançou como o álbum póstumo Let It Be, onde se destacam a transcedental Accross the Universe, as lentas I’ve Got a Feeling e The Long and Widing Road, a enérgica Get Back e a canção título, composta por Paul após sonhar com sua mãe, Mary Mccartney, que ele havia perdido aos 14 anos, lhe dizendo “deixa estar, tudo vai ficar bem”.

Na música God, John Lennon incluiria uma frase que ficaria famosa por marcar o fim dos Beatles: “O Sonho Acabou” (The dream is over). Após observar o quanto esta banda inglesa foi pioneira, inovadora e inspiradora tanto musicalmente quanto culturalmente para toda a humanidade, acho que irei discordar do gênio. O sonho não acabou, afinal. Apenas germinou.

 Beatles-Forever

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E leia também as outras partes deste artigo sobre os quatro de Liverpool:

Ouça as músicas citadas no artigo

– Back in the U.S.S.R.

– Ob-La-Di, Ob-La-Da

– Blackbird

– Why Don’t We Do It in the Road?

– While my Guitar Gently Weeps

– Don’t Pass Me By

– Dear Prudence

– Sexy Sadie

– Julia

– Good Night

– Revolution (abaixo – lançada no disco numa versão mais lenta

– Revolution 9

– The Ballad of John and Yoko

– Here Comes the Sun

– Come Together

– Oh! Darling

Medley de 8 músicas

– Accross the Universe

– I’ve Got a Feeling

– The Long and Widing Road

– Get Back

 

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