The Beatles! Parte 2: A Banda-Clube do Coração Solitário do Sargento Pimenta

Confira tembém as outras partes deste artigo:

Parte 1: Os Reis do Iê-Iê-Iê

Parte 3: O Sonho Acabou?

The-Beatles-2

Eu procuro entender quem acha os Beatles uma banda superestimada. Quem não vê nada demais nas músicas, achando as letras bobinhas e as melodias simples demais. Pessoas que não se deixam encantar pela alegria juvenil que a banda transmitia, encarando o carisma dos quatro como algo fabricado pela indústria para ser um produto de massa. Invariavelmente estas pessoas estão com a imagem da fase “terninho e cabelinho” do grupo em mente, em que, ok vamos admitir, a banda não tinha mesmo maiores ambições artísticas que não fosse emplacar o primeiro lugar nas paradas de sucesso (e como poderia ser diferente?), ainda que eu particularmente já enxergue desde o início da banda o talento e a produtividade incrível para composição da dupla Lennon/Mccartney (acho que músicas como “Can’t Buy me Love”, “Help”, “Day Tripper”, “We Can Work It Out” e inúmeras outras são geniais justamente por sua simplicidade).

Mas talvez a coisa que eu mais admire em John, Paul, George e Ringo seja o fato de que o sucesso não os bastou. Não foi suficiente para eles atrair multidões histéricas de fãs, lotar shows, vender quilos e quilos de álbuns e singles e ter suas músicas tocadas em tudo quanto era rádio no mundo. Não bastou para eles “apenas” serem os Beatles. Eles quiseram mais. Foram-se os terninhos. Cresceram cabelos, barbas e bigodes. E os caras mudaram o mundo… de novo.

 

(Paperback Writer, single lançado em Maio de 66)

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1966 foi um ano controverso para o fabfour. Ocorreram várias polêmicas nesse ano, tal como a divulgação da malfadada entrevista em que Lennon teria dito que eles eram “mais famosos que Jesus”, a famosa “capa do açougue”, onde os Beatles aparecem de jaleco com pedaços de boneca e carne, e os problemas enfrentados em um show nas Filipinas, onde a banda foi hostilizada por não terem comparecido à uma recepção promovida pela primeira-dama. Reflexos naturais da rotina de estarem sempre em evidência. Não à toa, foi nesse ano que os Beatles decidiram se retirar dos palcos, dedicando-se unicamente ao trabalho em estúdios.

RevolverA mudança de tom da banda ficou clara no seu sétimo álbum, “Revolver”, onde é abandonada a habitual temática romântica e o grupo passa a se entregar mais ao psicodelismo. A combinação de sons instrumentais indianos também é uma forte tendência apresentada, sobretudo em “Love You To”, de Harrison, e “Tomorrow Never Knows”. George, aliás, oferece uma participação maior como compositor, oferecendo três faixas do álbum (além da já citada, são dele também “Taxman” e “I Want to Tell You”). E se “Yellow Submarine” encanta ao evocar os ares aventureiros da infância, como esquecer da tocante reflexão sobre pessoas solitárias promovida por Mccartney em “Eleanor Rigby” (abaixo)?

Mais ou menos na época após o lançamento de “Revolver” uma lenda em torno de uma possível morte de Paul Mccartney começou a tomar força e se tornou uma das maiores teorias de conspiração do rock, tendo várias supostas pistas deixadas pelos Beatles em suas canções e nas capas de seus álbuns para dizer que Mccartney tinha sido substituído por um sósia. Paul posteriormente brincaria com essa lenda no seu álbum-solo “Paul is Live” de 1993.

Mas isso era apenas um aperitivo perto do que estava por vir. A reinvenção da identidade do grupo só alcançaria o ápice mesmo no ano seguinte, com o antológico oitavo álbum “Sgt Peppers Lonely Heart’s Club Band”. A ideia era justamente se apresentar como uma outra banda interamente nova, se desapegando de vez da imagem antiga dos Beatles. O álbum foi inovador em todos os sentidos, desde a capa, apresentando os Beatles junto com uma série de personalidades (inclusive eles mesmos, mais novos), até a sua técnica de gravação, considerada pioneira em vários aspectos.

Na primeira faixa, homônima ao álbum, a tal “banda do Sargento Pimenta” é apresentada e um certo Billy Shears é convidado a cantar. Ringo assume o personagem e começa imediatamente a cantar “With a Little Help From My Friends”(acima), um ode à amizade. Lennon contribui com a psicodelia de “Lucy in The Sky With Diamonds” (que ele morreu jurando não ter nada a ver com LSD), e junto com Mccartney a obra-prima “A Day in the Life”. Paul ainda traria a simpática “When I’m Sixty-Four”.

Sgt-PeppersDuas outras gravações destinadas a entrar no álbum acabariam sendo lançadas em separado, num compacto, e se tornariam grandes sucessos da banda. Ambas se caracterizam principalmente pela nostalgia, remetendo ao passado de seus compositores. De Lennon, “Strawberry Fields Forever”, fazendo referência a um orfanato existente próximo ao lugar onde foi criado. E Mccartney entra com “Penny Lane”, descrevendo um bairro de Liverpool. Ainda em junho os Beatles participaram do programa Our World, primeiro a ser transmitido ao vivo via satélite para o mundo inteiro. A banda cantou a canção “All You Need is Love”(abaixo), um verdadeiro hino de caráter universal. Lindo demais.

Magical-Mistery-TourO fabfour continuaria mergulhando no non-sense e no psicodelismo em seu terceiro longa-metragem e nono álbum “Magical Mystery Tour”, onde convidam seu público à tal misteriosa mágica viagem na faixa-título. Destacam-se também a música mais non-sense do fabfour, “I am the Walrus” (abaixo), composta por Lennon depois deste ter descoberto que professores estavam estudando as letras da banda, e a alegre e besta “Hello Goodbye”. “Strawberry Fields Forever”, “Penny Lane” e “All You Need is Love” acabaram sendo lançadas como faixas do álbum também. Foi durante a gravação de “Magical Mistery Tour” que o empresário do grupo, Brian Epstein, veio a falecer, fato que abalou o grupo e acabou sendo decisivo posteriormente para sua separação.

Os Beatles passaram os primeiros meses de 1968 na Índia estudando meditação transcendental com o maharishi Mahesh Yogi, de onde tiraram grande inspiração para composição. Harrison, em particular, sempre demonstrou grande interesse pela música, cultura e filosofia indiana, e esta viagem acabou sendo fundamental para ele tanto como beatle quanto como artista-solo. Regressando, a banda começa a trabalhar no seu próximo projeto, o álbum duplo “The Beatles” (popularmente conhecido como “Álbum Branco”), onde começariam as brigas entre os membros culminando num clima insustentável que acabaria por encerrar o grupo. Mas isso já é papo para o próximo post.

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Confira tembém as outras partes deste artigo:

Parte 1: Os Reis do Iê-Iê-Iê

Parte 3: O Sonho Acabou?

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