Sandman, a obra-prima de Neil Gaiman

Sandman - Com um punhado de areia, eu lhes mostrarei o terror
“Com um punhado de areia, eu lhes mostrarei o terror…”

Poucas vezes na minha vida eu me deparei com uma obra de fantasia cujo conteúdo fosse tão rico e ambicioso como o da série Sandman, a principal e mais famosa obra do autor de romances e quadrinhos inglês Neil Gaiman. As histórias do Senhor dos Sonhos, mesmo aquelas de menor nível, são nada menos que impressionantes.

Talvez o conceito mais poderoso presente na obra de Gaiman seja a multi-realidade em que consiste seu universo. A idéia é simples: a imaginação presente em cada ser é uma verdadeira máquina de criação de conceitos e idéias. Tais conceitos, uma vez criados, devem fazer parte de algum plano de existência, um tipo de realidade onírica. Este plano de existência é o Sonhar, reino de Lord Morpheus, o Sonho. Entretanto, se mais e mais pessoas imaginam um mesmo conceito, tal idéia pode ganhar autonomia e se “desprender” do Sonhar, passar a habitar uma realidade própria. Essa é a desculpa perfeita para Gaiman misturar e brincar com as mais diversas mitologias, lendas, folclores, ou mesmo com os modernos super-heróis dos quadrinhos. E é mais do que apropriado que diferentes desenhistas coloquem o seu traço na série, aumentando ainda mais essa sensação de múltiplas realidades.

Neil-Gaiman
Neil Gaiman

Comandando toda essa salada de idéias está Sandman, o personagem título, que também atende pela alcunha de Morpheus, Oneiros, Lord Moldador, Kai’Ckul, ou simplesmente Sonho. Seu reino é o Sonhar, lugar para onde vão as almas de todos quando estão adormecendo e que guarda em si todos os mundos imaginários de cada sonhador. A aparência com a qual Morpheus é geralmente retratado parece ser inspirada no roqueiro Robert Smith, líder da banda The Cure. Sua personalidade é introspectiva, essencialmente preocupado com formalidades e responsabilidades, às vezes sendo cruelmente insensível e altivo, mas sempre tendo um ar melancólico. Ainda que seja teimoso em sempre exercer o papel que lhe é devido, Morpheus não consegue deixar de questionar em seu íntimo a razão de sua própria natureza.

Contudo, mesmo sendo o personagem principal da série, não é raro Morpheus exercer um papel de mero coadjuvante da história que é contada em determinado momento. Gaiman reserva um enorme roll de personagens secundários, através dos quais a trama se desenrola, desde deuses de diferentes culturas, seres mitológicos dos mais diversos folclores, até mesmo seres humanos comuns como eu e você, que vivem suas vidas no cotidiano urbano comum de cada dia. Personagens históricos como Willian Shakespeare, Marco Polo e o imperador romano Otávio Augusto também marcam presença.

Os Perpétuos

Mas de longe os personagens que mais chamam a atenção e imediatamente fisgam o leitor são a família de Sonho. Os Perpétuos, ou Sem-fim, são personificações antropomórficas de vários aspectos do Universo. Não se tratam de deuses, uma vez que não necessitam da crença para existirem. São sete: Destino, Destruição, Desejo, Desespero, Delírio, Morte e o próprio Sonho (em inglês curiosamente todos os seus nomes começam com a letra “D”: Destiny, Death, Dream, Destruction, Desire, Despair e Delirium). Destino caracteriza-se como um observador constante dos fatos, tendo sempre preso a sua mão seu livro. Destruição há muito abandonou seu reino, passando a se dedicar a tarefas criativas e construtoras, embora não apresente talento algum para isso. Desejo tem natureza andrógina, profundo egoísmo e grande vaidade, freqüentemente provocando e fazendo jogos com seus irmãos. Desespero é quieta, carregando sempre um ar desolado. Delírio um dia foi Deleite e era a mais bela donzela que já se viu, mas por um motivo desconhecido caiu na insanidade, sendo de temperamento extremamente inconstante e imprevisível. E, finalmente, aquela que rouba a cena desde a sua primeira aparição, Morte é caracterizada como uma jovem que transborda simpatia, sempre admirando as coisas simples e mostrando incrível maturidade para aconselhar seu irmão mais novo Sonho nas mais diversas situações.

A história da série se divide em 10 arcos. O primeiro, “Prelúdios e Noturnos”, narra como Morpheus é capturado e fica preso numa redoma de vidro por mais de 70 anos até conseguir se libertar. Uma vez libertado, ele deve retomar a posse de seus objetos roubados nesse meio tempo: uma algibeira de areia, um elmo e um rubi. Vale notar nesse arco o esforço de Gaimanem situar Morpheusdentro do universo DC (Sandman é um título da linha Vertigo), trazendo a participação de John Constantine e de personagens da Liga da Justiça. Também vale ressaltar o interessante jogo de Chorozon e a angustiante seqüência que se passa dentro de uma lanchonete.

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O segundo arco, “A Casa de Bonecas”, conta a história de Rose Walker, uma jovem que viaja para conhecer sua recém-descoberta avó, Unity Kinkaid. Em paralelo, Morpheus deve começar a arrumar novamente seu reino, que ruiu em sua ausência, partindo em caçada a sonhos e pesadelos fugitivos e se preparando para combater uma iminente ameaça. Aqui ainda se faz presente a preocupação de Gaimanem ligar Morpheusao universo dos super-heróis, através de uma sub-trama cujos desdobramentos terão suma importância posteriormente. Existe ainda uma pequena (e interessantíssima) história isolada do restante da narrativa a respeito de Robert Gadling, um homem que simplesmente se recusa a morrer.

O terceiro arco, “Terra dos Sonhos”, é uma coletânea de três histórias sem relação entre si. A primeira (“Calíope”) conta como Sonho livra a musa Calíope de um cativeiro. Interessante notar nessa história como Morpheus começa a sinalizar mudanças de personalidade devido ao seu tempo preso. A segunda história (“Um Sonho de Mil Gatos”) é curiosa, contada do ponto de vista dos gatos, é centrada numa profetisa felina que acredita que pode mudar a realidade e fazer os gatos serem a raça dominante do planeta se um grande número de gatos se juntarem e sonharem juntos com isso. A terceira  história (“Sonho de Uma Noite de Verão”) é sobre William Shakespeare encenando sua famosa peça para os habitantes de Arcádia, um reino de fadas, como forma de pagamento a um trato feito com Morpheus.

sandman_1-300x225O quarto arco, “Estação das Brumas”, é um dos melhores da série. Pela primeira vez aparecem os Perpétuos (exceto Destruição) reunidos. Após ser convencido por Morte, Sonho deve ir ao inferno libertar uma antiga amante do tormento ao qual ele mesmo a condenou, por ela o ter rejeitado. Entretanto, lembrando que Lúcifer Estrela-da-Manhã tinha jurado destruí-lo anteriormente, é razoável pensar que o Senhor dos Sonhos não terá uma recepção muito calorosa. Além do momento icônico da reunião dos Perpétuos, o destaque fica para Lúcifer, que é retratado de maneira incrível, e para a participação de diversas figuras das mais diferentes mitologias.

O quinto arco, “Um Jogo de Você”, é o mais fraco da série. Conta a história de Barbie, uma nova-iorquina divorciada (que já havia dado as caras em “A Casa de Bonecas”), em sua epopéia para livrar o mundo mágico dos seus sonhos da ameaça do Cuco. A única coisa que vale a pena ser ressaltada aqui é a introdução de Thessaly, uma personagem intrigante que desempenha um importante papel posterior na trama.

O sexto arco, “Fábulas e Reflexões”, é outra coletânea de histórias. Aqui vemos a excelente história, baseada em fatos reais, de Joshua Norton, um louco que se intitulou Imperador dos Estados Unidos e virou atração turística. Também vemos Marco Polo se perdendo em uma espécie de limbo temporal e sendo guiado de volta com a ajuda de Morpheus. Outra história interessante é a do imperador Otávio Augusto, que tira um dia por ano para sair às ruas disfarçado de mendigo. Mas a mais importante para o arco geral da série é aquela que adapta o mito da tragédia de Orfeu à Sandman.

coleçao-conradNo sétimo arco, “Vidas Breves”, temos outro grande momento da série. Desolado por uma decepção amorosa, Morpheus aceita seguir Delírio em uma missão para reencontrar seu irmão Destruição, causando sérias conseqüências no caminho. Destaque para a participação hilária da maluquinha irmã mais nova de Sonho, e também para a apresentação do pródigo Perpétuo, cuja filosofia mexe de maneira derradeira com o protagonista. Existe no desfecho deste arco um detalhe crucial que encaminha a conclusão da saga.

O oitavo arco, “Fim dos Mundos”, poderia muito bem ser classificado como outra coletânea de histórias, com o detalhe que aqui elas são contadas em flashback por um denominador comum. Viajantes de todos os tempos ficam presos no vórtice de uma tempestade de realidades, e acabam procurando abrigo numa mesma misteriosa estalagem. Para pagar a estadia cada um tem que contar uma história.

O nono arco, “Entes Queridos”, é o clímax da série. Não contarei nada para não entregar, mas basta dizer que essencialmente tudo o  que foi visto antes converge para aqui, uma conclusão maravilhosamente épica.

morpheusFinalmente, o décimo e último arco, “Despertar”, funciona mais como um epílogo da história. Um desfecho para encerramento, com a participação da maioria dos personagens vistos anteriormente. Ainda conta com mais uma história de Rob Gadling (aquele cara que não quer morrer, tá lembrado?) e com William Shakespeare finalmente saldando sua dívida com Lord Morpheus.

Há ainda alguns encadernados especiais, como o “Noites sem Fim”, que conta um conto para cada perpétuo, e o “Morte: O Maior Espetáculo da Vida”, que tem histórias protagonizadas pela carismática irmã mais velha de Sonho. Também vale dar uma conferida.

Atualmente Sandman está sendo publicado em encadernados de luxo pela editora Panini, que já lançou dois volumes de quatro ao total. Gaiman já declarou que pensa em fazer um filme tendo Morte como protagonista, e uma série de TV adaptando Sandman também é cogitada.

Encarando em retrospecto, a história do Senhor dos Sonhos, além de riquíssima em conteúdo, nos mostra uma bela visão metafórica de como é difícil e ao mesmo tempo inevitável encarar mudanças em nossas vidas.baby_endless

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