A ficção histórica de Bernard Cornwell

Resolvi inaugurar a seção de literatura falando da obra do autor britânico Bernard Cornwell, especializado em romances históricos, sobretudo envolvendo o passado medieval/moderno da Inglaterra.

Bernard Cornwell
Bernard Cornwell

Cornwell voltou-se para a escrita em 1979, ano em que se mudou para os EUA, país de sua esposa, e teve seu green card recusado pelo governo, o que lhe impediu de exercer sua profissão no país. Mas qualquer leitor que se depara com um de seus livros percebe que na verdade ele jamais abandonou o ofício de historiador, pois é notório o cuidadoso trabalho de pesquisa histórica executado a cada romance publicado. Ele permeia sua narrativa de fatos históricos verídicos, além de referências à mitos e lendas famosas, sempre adaptando-os à realidade retratada. Prato cheio para qualquer interessado por história medieval, Cornwell ainda exibe talento para conceber personagens incrivelmente carismáticos e marcantes, além de um humor bastante eficaz e seqüências de batalha simplesmente sensacionais, de tirar o fôlego do leitor e impedi-lo de parar de ler. Sem exagero, ler como o cara descreve a ação da guerra chega a ser mais empolgante do que muito filme por aí no cinema.

Não há absolutamente o menor espaço para idealizações, não há bem e mal, apenas o jogo de interesse entre os personagens. Assim, o mesmo personagem capaz de realizar o mais extraordinário ato de coragem pode ser aquele que capítulos depois estará roubando e estuprando menininhas durante um saque a uma cidade, por exemplo.

Desenhando um verdadeiro painel histórico do passado da Inglaterra, Cornwell mistura com talento história com ficção, mitos e lendas com realidade.

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– Stonehenge:

Stonehenge“Os deuses falam por sinais.”

Ambientando a narrativa em2000 AC, Cornwell entrega uma história tribal que propõe uma versão para a construção do enigmático monumento que dá nome ao livro. Não o li, mas com certeza é algo bastante diferente do que ele costuma escrever.

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– As Crônicas de Arthur:

ArthurHá muito e muito tempo, numa terra chamada Britânia, estas coisas aconteceram.

Uma das séries de maior sucesso dele, aqui temos uma trilogia (“O Rei do Inverno”, “O Inimigo de Deus” e “Excalibur”) que narra a versão de Cornwell para a lenda do rei Arthur,numa pegada muito mais realista (mais ou menos a mesma idéia do filme com Clive Owen e Keira Knighley, mas obviamente de qualidade  absurdamente superior).

Baseando-se na época pós-Império Romano, a ilha que futuramente viria a se tornar a Grã-Bretanha é habitada pelos bretões, que se dividem em vários pequenos reinos. É no maior deles, chamado Dumnonia, que surge a figura de Arthur, filho bastardo do falecido rei Uther, que ascende ao poder e busca a união entre todos os reinos bretões contra a invasão dos anglos-saxões. Em paralelo existe o choque cultural entre a “nova religião” – o cristianismo, que cresce exponencialmente – e o antigo paganismo dos druidas, que tem em Merlin seu maior expoente. Aliás, vale dizer que Cornwell jamais procura retratar a “magia” de maneira fantástica, mas também não procura dar uma explicação para os efeitos “mágicos” que ocorrem, habilmente sempre deixando a situação de maneira ambígua. No final é o leitor que decide se o que os druidas fazem é realmente mágico ou se tudo não passa de uma combinação de coincidências, truques e manipulação psicológica.

A história é narrada em flashback em primeira pessoa por Derfel Cadarn, um saxão órfão que foi criado como bretão por Merlin. Um dos pontos mais interessantes da trilogia se dá em acompanharmos o protagonista e seu constante amadurecimento por toda a vida. Nos apegamos a Derfel, sentimos júbilo junto com ele em momentos de alegria e sua dor nos de tristeza. Entramos junto com ele nas batalhas, lutamos, vencemos, perdemos. É impossível não se apegar a esse protagonista (até mais do que o próprio Arthur).

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– Crônicas Saxônicas:

Saxonicas“Meu nome é Uhtred. Sou filho de Uhtred, que era filho de Uhtred, cujo pai também se chamava Uhtred.”

Esta série em muito se assemelha à trilogia do Arthur (eu mesmo vivo confundindo coisas entre as duas). A narrativa se passa no século IX, algum tempo depois da época de Arthur, quando os anglo-saxões já tomaram posse da futura Grã-Bretanha e agora são eles que lutam contra os invasores estrangeiros.

A história também é narrada em primeira pessoa pelo protagonista Uhtred, um nobre saxão que foi raptado quando criança e criado pelos dinamarqueses, tendo aprendido com eles o modo de vida viking. Depois de adulto acaba voltando para o lado saxão e se aliando ao rei Alfredo, que odeia, para tentar reconquistar Bebbanburg, fortaleza que pertencia ao seu pai e que foi usurpada por seu tio. Junto com Alfredo (e posteriormente com sua filha), Uhtred vai defender o reino saxão de Wessex contra os dinamarqueses, e essa campanha militar é que acabará formando um único estado sólido entre os saxões, aquilo que hoje conhecemos como Inglaterra.

A comparação com a trilogia de Arthur é inevitável, a começar pelo protagonista. Uhtred é um personagem com mais falhas de caráter do que Derfel, mais arrogante e cheio de si, mas é igualmente (senão for mais) carismático. O conflito religioso também se faz presente aqui, mas com menos intensidade, já que aqui este se confunde com a guerra política (há aqui a clara distinção saxões = cristãos e dinamarqueses = pagãos), diferente do que acontecia na trilogia arthuriana, onde estes aconteciam em paralelo.

Ainda em desenvolvimento, a série atualmente conta com 5 volumes:  “O Último Reino”, “O Cavaleiro da Morte”, “Os Senhores do Norte”, “A Canção da Espada” e “Terra em Chamas”. O próximo livro, intitulado “Death of Kings” (Morte de Reis), está previsto para ser lançado em setembro deste ano na Inglaterra. Não se sabe ainda de quantos volumes a série será composta ao total.

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– A Busca pelo Graal:

Graal“Hookton era um vilarejo inglês muito modesto.”

Nesta trilogia (“O Arqueiro”, “O Andarilho” e “O Herege”) Cornwell ambienta sua história no século XIV, em meio à famosa Guerra dos Cem Anos ocorrida entre ingleses e franceses. Aqui acompanhamos a trajetória do arqueiro Thomas de Hookton, que entra para o exército inglês depois de ter sua aldeia invadida e ver seu pai ser morto aos 18 anos pelo misterioso Arlequim. Com o desenrolar da história, Thomas acaba se envolvendo com a busca pelo lendário Santo Graal.

Esta foi a primeira saga do Cornwell que eu li, e imediatamente me fascinei pelas seqüências das batalhas. Desde a tensão que acomete a todos nos instantes antes, passando pela adrenalina das lutas e a posterior glória da vitória ou fracasso da derrota. Impossível não se afeiçoar à figura de Will Skeat, comandante de Thomas no exército e personagem mais carismático da série.

Uma pena que o último volume da trilogia opte por concluir a história de maneira fraca, ignorando alguns arcos dramáticos de personagens importantes e sendo um pouco previsível. Mas isso não tira o mérito da saga.

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– Azincourt:

Azincourt1“Num dia de inverno de 1413, logo antes do Natal, Nicholas Hook decidiu cometer assassinato.”

Cornwell retoma o tema sobre a atuação dos arqueiros ingleses na Guerra dos Cem Anos nesse romance solo tendo como clímax a grande batalha de Azincourt, ocorrida em 25 de Outubro de 1415. Aqui acompanhamos a história de Nicholas Hook, arqueiro inglês que foge do seu país após assassinar um padre e acaba se envolvendo com a guerra contra os franceses.

O livro (que pretendo ler em breve) é bastante elogiado e uma adaptação para o cinema está sendo planejada.

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– As Aventuras de Sharpe:

Sharpe

“É curioso como não existem abutres na Inglaterra, pensou Richard Sharpe.”

sbean_sharpe
Sean Bean como Richard Sharpe

Esta é a maior e mais famosa obra de Cornwell. Possuindo mais de 20 livros, as aventuras do militar Richard Sharpe em suas campanhas nas Índias Orientais e nas Guerras Napoleônicas o elevaram ao status de personagem mais conhecido de Cornwell.

Confesso que não li a série (afinal haja coragem para encarar uma saga desse tamanho!), que conta com 9 livros já traduzidos no Brasil, mas com certeza é apenas questão de disponibilidade de tempo hábil para conferir.

As aventuras de Sharpe foram adaptadas no formato de série para a tv britânica com ninguém mais ninguém menos que Sean Bean (Senhor dos Anéis, Guerra dos Tronos) no papel principal. Precisa dizer mais?

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– O Condenado:

condenadoNeste romance, Cornwell se afasta das batalhas de guerras históricas e procura explorar mais a vida urbana da Londres pré-Revolução Industrial. Rider Sandman é um falido capitão veterano do exército inglês que aceita realizar uma investigação de um crime que pode livrar um inocente da forca.

A crítica de Cornwell ao sistema inglês de justiça praticamente inexistente da época é mordaz, como seu detalhismo em descrever a morte na forca logo na introdução do livro procura salientar (e a piada envolvendo “rins condimentados” é de um humor negro delicioso). Contando com uma participação pequena, porém marcante, de Robin Hood, o livro ainda tem um trabalho primoroso no que diz respeito ao vocabulário popular da época, empregando expressões e gírias no mínimo inusitadas. Lembra um pouco o estilo Sherlock Holmes de história.

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O próximo título de Cornwell a ser lançado no Brasil, previsto para o segundo semestre de 2011, é “A Fortaleza”, que ambientará sua narrativa na Guerra da Independência dos Estados Unidos.

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